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1º Capítulo - Jornal Nacional

Há 35 anos, todas as noites, sete em cada dez aparelhos de televisão ligados sintonizam o Jornal Nacional, da TV Globo. A única explicação para isso é a confiança que os brasileiros têm nas informações que o JN lhes transmite diariamente.
Em uma palavra, a razão do sucesso é a qualidade. Jornal Nacional: A Notícia Faz História traça a história viva do Jornal Nacional, passando em revista os momentos que marcaram o telejornal nesses 35 anos. Não apenas os melhores momentos, mas todos os momentos, inclusive os mais polêmicos. Tendo como matéria-prima mais de mil horas de entrevistas, centenas de scripts de programas antigos e todo o acervo de imagem do Centro de Documentação da TV Globo, esse livro é a história contada por seus protagonistas, uma perspectiva muito diferente da utilizada por outros estudos sobre a televisão e seus programas.



1º Capítulo

O Jornalismo da TV Globo, Antes do JN:
de Mauro Salles a Armando Nogueira


Anos 1960: a tecnologia dos satélites aproxima os povos do planeta e, dentro de cada país, intensifica o intercâmbio de informações entre regiões distantes. Marshall McLuhan cria o conceito de "aldeia global", antevendo novos tipos de relações entre os indivíduos a partir da revolução provocada pela mídia eletrônica. O Brasil, de dimensões continentais, é cenário ideal para a vivência desses novos tempos: o começo da era das comunicações. Contribui para isso o espírito de "integração nacional", animado desde os anos 1950 pela construção de Brasília e estimulado pelos governos militares a partir de 1964. Em 1965, dois fatos seriam decisivos para garantir esse processo: a inauguração da TV Globo em abril e a criação da Empresa Brasileira de Telecomunicações (Embratel) em setembro.

O surgimento, em 1969, do Jornal Nacional, primeiro telejornal em rede, foi o grande marco desse processo, embora o telejornalismo já fizesse parte da programação da Globo desde sua inauguração, em 26 de abril de 1965. Entre os fatos que a emissora cobriu, antes do JN, estavam, por exemplo, a enchente no Rio de Janeiro em 1966, o lançamento da Apolo 9 e a chegada do homem à Lua. O jornalismo naquele momento, no entanto, tinha ainda um alcance regional, incipiente. A idéia de uma rede nacional ainda era um sonho.

Já no dia da inauguração da Globo, foi ao ar o Tele Globo, noticiário de meia hora de duração, dirigido por Rubens Amaral e apresentado por Hilton Gomes e Aluízio Pimentel. A equipe de jornalismo era dirigida por Mauro Salles. Mario de Moraes era chefe de redação e Baleche Filho o subchefe. O departamento funcionava em apenas uma sala, na sede da emissora, no Jardim Botânico, Rio de Janeiro.

"Naquele 6m x 6m trabalhava todo mundo", conta Mario de Moraes. E todos cumpriam várias funções. Eram apenas dois cinegrafistas (Gabriel Condofer e Chucho Narvaez) e cinco repórteres (Mauro Ivan, Mário Luís Frank, Roberto Dantas, Luís Augusto e Eduardo Ramalho).

A mudança no jornalismo da TV Globo veio em setembro de 1966, quando Armando Nogueira assumiu a direção do departamento e começou a ampliá-lo, com mais equipamentos e mais pessoal. Recrutar jornalistas qualificados, porém, não era fácil. De acordo com Armando, havia forte preconceito contra a televisão, considerada muito superficial, mais um veículo de entretenimento que de informação.

Decidiu então investir em jovens profissionais. Uma de suas principais apostas foi Alice-Maria Tavares Reiniger, que começou na Globo como estagiária e, em pouco tempo, se tornaria seu braço direito. Nos 24 anos seguintes, Armando Nogueira e Alice-Maria comandariam, juntos, o jornalismo da Rede Globo.

TELEJORNAIS PIONEIROS
O primeiro telejornal da TV Globo, o Tele Globo, era exibido em duas edições: uma às 12h e outra às 19h. Além de Hilton Gomes e Aluízio Pimentel, também foram seus apresentadores: Íris Lettieri, Paulo Gil, Nathalia Timberg, Fernando Lopes e Teixeira Heizer.

Em janeiro de 1966, o Tele Globo passou a ter uma edição única, às 13h. Nessa época, surgiu outro telejornal, o Ultranotícias, também com duas edições. A primeira, apresentada por Paulo Gil, durava cinco minutos e ia ao ar de segunda à sexta, às 15h. A segunda, de 19h45 às 20h, era comandada por Hilton Gomes e Irene Ravache.

Em setembro de 1966, o programa passou a ter uma única edição, às 19h45. O telejornal era patrocinado pelas empresas Ultragaz e Ultralar e produzido pela agência de publicidade McCann Erickson. Na época, era comum as agências interferirem na elaboração e até na orientação dos programas jornalísticos. Na TV Tupi, por exemplo, o Repórter Esso também era realizado pela McCann Erickson, responsável pela conta publicitária dos Postos Esso. O programa era todo elaborado na redação da agência de notícias United Press International (UPI), que entregava prontos o rolo de filme e o script à emissora, cabendo ao locutor, simplesmente, ler diante da câmera.

Armando Nogueira, quando começou a trabalhar na Globo, encontrou situação semelhante no Ultranotícias. O representante da McCann Erickson interferia diretamente. Se não gostasse de alguma matéria, mandava cortar. Certo dia, suprimiu do noticiário uma matéria sobre formatura de cadetes da Marinha e explicou por quê: "Ah, eles tiraram o nosso estacionamento no edifício São Borja..."

O diretor de jornalismo acabou com esse tipo de interferência. Em março de 1967, pôs fim ao Ultranotícias e criou o Jornal da Globo. Apresentado por Luís Jatobá e Hilton Gomes, era exibido às 19h30 e tinha José Ramos Tinhorão como editor-chefe. Os outros editores eram Sílvio Julio Nassar e Jotair Assad. O redator internacional era Sebastião Nery, que mais tarde seria substituído por Humberto Vieira. Em 31 de agosto de 1969 o Jornal da Globo saiu do ar, dando lugar ao Jornal Nacional.

AS PRIMEIRAS COBERTURAS

A enchente de 1966
Em janeiro de 1966, logo depois de Walter Clark ter assumido a direção-geral da TV Globo, o Rio de Janeiro sofreu uma das piores enchentes da sua história. Cinco dias de temporal resultaram em mais de 100 mortos e 20 mil desabrigados. As equipes da Globo foram para as ruas portando câmeras Auricom e captando as imagens da tragédia e da dor dos cariocas. Motoqueiros levavam para a emissora os filmes, que imediatamente eram revelados e exibidos. A chuva forte arrebentou as tubulações que drenavam as águas do rio dos Macacos, que transbordou, destruindo várias casas perto da TV Globo, no bairro do Jardim Botânico. Walter Clark não perdeu tempo: posicionou duas câmeras diante da emissora e, dali, Hilton Gomes passou a comentar os fatos ao vivo.

A Globo não se limitou a mostrar os fatos. Promoveu também uma ampla campanha comunitária. Os estúdios do Jardim Botânico foram transformados em central de recolhimento de doações para os desabrigados. Já no primeiro dia, não havia mais lugar para armazenar as toneladas de remédios, mantimentos e cobertores que chegavam.

Com a cobertura da enchente, a TV Globo, que desde a estréia apresentava baixos índices de audiência, conquistou o Rio de Janeiro. Ao se transformar na voz que lutava pela recuperação da cidade, a emissora ganhou de vez a simpatia da população carioca, conseguindo um espaço até então dividido pela TV Tupi, a TV Rio e a TV Excelsior.

O jornalista Armando Nogueira recorda: "No Jardim Botânico tinha uma queda d'água que passou a ser a imagem-símbolo da enchente. A câmera que Walter Clark mandou instalar na rua Von Martius, apontando para a queda, ficava ligada dia e noite. Era como a imagem-padrão da Globo. Eu trabalhava na TV Rio. Mas a nossa referência se ia continuar chovendo era a cachoeira da Globo."

O lançamento da Apolo 9
O Brasil ingressou na era das transmissões via satélite em 28 de fevereiro de 1969, dia em que a Embratel inaugurou, no município fluminense de Itaboraí, a Estação Terrena de Comunicação Via Satélite.

Já no dia 26, o jornal O Globo anunciava em página inteira: "Dia 28 de fevereiro(anote esta data histórica), a televisão brasileira estará ligada ao mundo inteiro em transmissões diretas através do satélite Intelsat III. Você assistirá a todos os lances do espetacular vôo da Apolo 9, desde o seu lançamento em Cabo Kennedy, o audacioso acoplamento no espaço, até a sua emocionante descida no Pacífico. Você estará participando de todos esses acontecimentos no mesmo instante em que eles estarão ocorrendo."

A missão da Apolo 9 era testar o módulo de exploração que permitiria o envio de astronautas à Lua. O vôo foi adiado por problemas técnicos, mas nem por isso a estação da Embratel deixou de ser inaugurada. Às 11h, Hilton Gomes apresentou, "direto de Roma", um trabalho histórico, uma entrevista concedida pelo papa Paulo VI, gravada na véspera.: "Esta é a primeira reportagem internacional via satélite para o Brasil, inaugurando, oficialmente, o Intelsat III, numa transmissão em cadeia para todo o Brasil, comandada pela Embratel."

E num português quase perfeito o papa falou durante três minutos e abençoou o povo brasileiro. Logo depois, foram exibidos lances de um jogo de futebol do clube italiano Juventus. O objetivo era que o telespectador tivesse uma idéia de como seria a transmissão da Copa do México no ano seguinte. No dia 3 de março, direto de Cabo Kennedy, uma reportagem de Luís Jatobá mostrou os três tripulantes da Apolo 9 - James McDivitt, David Scott e Russel Schweikart - fazendo a última refeição em terra, antes do vôo. Finalmente, por volta de uma hora da tarde a Estação de Itaboraí assumiu a recepção direta do satélite Intelsat III e exibiu o lançamento da nave.

À noite, Hilton Gomes abriu o Jornal da Globo saudando "o admirável mundo novo da televisão via satélite", que permitia ao telespectador assistir ao vivo aos acontecimentos internacionais: Agora o fato entra na sua casa instantaneamente, como ocorreu hoje à tarde, precisamente à uma hora, quando um extraordinário sistema de comunicações, incluindo a NBC, o satélite Intelsat, a Embratel, as Emissoras Associadas e a Rede Globo de Televisão, lhe mostrou imagens de impressionante nitidez do lançamento da Apolo 9 nos Estados Unidos.

Incrível! O homem chega à Lua!

No dia 20 de julho de 1969, cerca de um mês antes da estréia do Jornal Nacional, a nave norte-americana Apolo 11 cumpriu a missão mais importante da corrida espacial entre Estados Unidos e União Soviética, iniciada no final dos anos 1950. Horas depois de o módulo da nave, o Eagle, ter pousado na planície lunar do mar da Tranqüilidade, o astronauta e comandante da missão Neil Armstrong dava os primeiros passos na superfície da Lua, seguido por Edwin Aldrin Jr.

Mais de 600 milhões de pessoas no mundo inteiro assistiam ao espetáculo, ao vivo, pela TV. A Apolo 11 havia entrado na órbita da Lua no dia anterior. Em edições extraordinárias, a TV Globo informava sobre as manobras de aproximação do módulo lunar. Enquanto Armstrong e Aldrin comandavam o Eagle, um terceiro astronauta, Michael Collins, permanecia na nave-mãe.

Ao tocar o solo lunar, Neil Armstrong pronunciou a célebre frase: "É um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a humanidade." Eram 23h56, horário de Brasília. A TV Globo transmitia, sem interrupções, as imagens de Armstrong caminhando sobre a superfície da Lua, seguido por Edwin Aldrin Jr. O repórter Hilton Gomes narrou a chegada dos astronautas direto dos estúdios da TV Globo, no Jardim Botânico. Um trabalho marcante, como ele mesmo conta: "Acompanhamos o lançamento da Apolo 11, eu e a equipe lá em Cabo Kennedy, e voamos para o Rio, fomos direto para o estúdio. Quando chegamos, a nave estava se aproximando da Lua e tivemos que narrar simultaneamente o diálogo dos três astronautas. E, com toda aquela preocupação, as emoções iam surgindo enquanto eles falavam."

A perfeição das imagens na transmissão foi tal que levou alguns telespectadores a duvidar de que o homem tivesse realmente pisado na Lua. Enquanto havia aqueles que julgavam se tratar de uma farsa dos norte-americanos, outros chegavam a pensar que era uma "armação" da TV Globo, como testemunhou o próprio Hilton Gomes. Ao tomar um café no bar da esquina, a moça que sempre o atendia olhou o jornalista com cara feia e disparou: "Você é um mentiroso! O homem não foi à Lua coisa nenhuma!" Como outros fregueses também olhavam desconfiados, Hilton Gomes desistiu do café e saiu de finito.

Graças à transmissão da façanha espacial, a TV Globo ocupou, pela primeira vez, a liderança na audiência na cidade de São Paulo. A emissora, até então considerada excessivamente carioca, ganhava definitivamente a simpatia dos paulistanos. Em setembro de 1969, quando estreou o Jornal Nacional, a TV Globo já detinha a liderança absoluta de audiência: apresentava nove entre os dez programas mais assistidos no Rio e três entre os dez de São Paulo. Em 1971, a Rede Globo passou a exibir os dez programas mais assistidos nas duas capitais.